Reforma…o quê? Tens liberdade de fazer as tuas escolhas?

Resumo

Ao longo do ciclo de vida são muitos os acontecimentos pelos quais os indivíduos vão passando. A reforma por vezes é vivida em torno de preconceitos que condicionam a forma de ser, de estar e de sentir. Este novo estatuto pode ser uma oportunidade ou intimidação dependendo das expectativas de cada um e da forma como a organizam.  

Quais os danos da desvinculação abrupta do trabalho?

Aborda a dificuldade dos sujeitos em lidar com a separação do trabalho e de que forma a permanência de uma vida activa permite o seu “equilíbrio” em todos os âmbitos.

Factores Políticos e Económicos são contemplados neste artigo, como condicionantes da reforma, bem como, recomendações por parte de organizações internacionais que permitem sucesso nesta fase do percurso de vida dos indivíduos.

Por fim, refere-se a importância de uma atitude reflexiva face às condicionantes e da responsabilidade de cada um do rumo que dá ao seu próprio desenvolvimento.

Palavras-chave: reforma; ruptura com o mundo do trabalho, Inactividade versus qualidade de vida.

 

Quando foi proposto pela docente, da Unidade Curricular de Psicologia do Adulto e do Idoso (Curso de Educação Social da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico do Porto ), para escrever um artigo científico abordando várias temáticas, a primeira que me saltou à vista foi a pré-reforma. E porquê? A razão que me levou a escolher este tema situa-se na esfera afectiva.

O meu objectivo é perceber quais condicionantes que impossibilitam o bom desenvolvimento do indivíduo, quando entram na reforma, e quais as consequências negativos que acarreta este estatuto.

Num primeiro ponto analiso a relação entre Políticas Económicas e a reforma explicando a causa do aumento dos reformados ainda jovens. A aquisição deste novo estatuto poderá influenciar a vida dos sujeitos condicionada pelas representações mentais de cada um.

Posteriormente, a partir da desvinculação do trabalho abordamos quais as reflexões dos sujeitos face à reforma sendo perspectivada como uma recompensa ou uma condenação. Explica-se quais as razões de uma difícil ruptura com o trabalho, quais as perdas, e de que forma a falta de planos para futuro poderão afectar o desenvolvimento dos sujeitos. Será que o Estado se preocupa com esta população?

Explicasse a importância de ter uma vida activa após a reforma e de que forma se relaciona com o conceito de qualidade de vida.

Por fim a importância de uma atitude reflexiva e a responsabilidade das escolhas individuais face às condicionantes para que entra na reforma.

 

 

Políticas Económicas e incentivos à reforma

 

O termo reforma continua a ser confundido com a velhice, existe ainda muitos preconceitos em relação a este estatuto. Entrar na reforma é estar mais próximo da morte. Apesar da psicologia social e do desenvolvimento apontar poucas mudanças da personalidade e na intelectualidade de quem envelhece, segundo França (1989, cit. França,  1999).

Quando se fala de reforma pressupõe-se que o indivíduo atingiu uma determinada idade (65 anos no máximo, segundo as políticas actuais) e consequentemente o retiro definitivo da sua actividade profissional. Contudo, existe um conjunto de políticas e factores, diferentes de país para país quando se fala de reforma, e diferentes formas de encara-la.

Cada vez mais aumenta o número de reformados ainda jovens, “transição atípica da reforma” (Ferreira, 2006). Na Europa, segundo os serviços de informação (Income Date Services) divulgados no The Telegraph (Junho de 1998) mostram que 70 % dos indivíduos entram na reforma antes de completar os 60 anos. “No caso da Inglaterra, mais de 33 % das pessoas acima do trabalho ainda participam na força do trabalho, enquanto na França e Alemanha esta percentagem é menor de 20%” (França,1999).

Este facto deve-se aos incentivos de empresas, e as suas políticas, que no final da década de 1980 adoptaram o uso da reforma antecipada. Os planos da reforma incentivada agradava não só às empresas mas também aos trabalhadores que viam a possibilidade de receber um benefício em dinheiro podendo então, os futuros reformados, colocar na prática alguns dos seus desejos, sonhos. (França, 1999)

Todavia existe um estigma entre o activo/ útil e inactivo/ inútil, representação esta que pode condicionar o indivíduo conduzindo, ou não, “ a um processo acelerador do envelhecimento” e uma “ morte social” (Ferreira, 2006). Segundo Tomás (2001, cit. Ferreira, 2006) “vários autores denominam o período dos 45 aos 65 anos, “a idade de ninguém”, convertendo o indivíduo a um colectivo anónimo, carente de identidade e submerso num menor interesse social”.

 

 

Ruptura com o mundo do trabalho

 

Esta separação da vida profissional activa permite ao indivíduo, muitas vezes, com grande euforia, perspectivar o seu futuro na construção de novos projectos de vida sustentados no ócio e lazer. Contudo persiste uma questão fundamental que diz respeito à reflexão individual das alternativas, actividades pós reforma e de que forma se relaciona com os desejos, interesses, motivações e papeis representados. Para França (1989, cit. França, 1999) o cerne da questão é se alguma vez os indivíduos reflectiram sobre isso.

Existe uma amálgama de sentires quando se chega a este período da vida. Por um lado uns gostam do que fazem, ao nível profissional, e das relações sociais implicadas, outros querem entrar na reforma mas continuar com uma vida profissional. Por fim existe indivíduos que querem parar de trabalhar mas não têm planos para depois da reforma.

Em todas estas situações deve ser analisado o significado do trabalho para o indivíduo. Na perspectiva de Lúcia França (1999) o trabalho pode ser visto como uma fonte de prazer ou apenas uma forma de sobrevivência. Uns tiveram oportunidade de escolher a sua profissão, outros por serem actividades práticas, rápidas e rentáveis. Parece evidente que para alguns, aqueles que exerceram uma actividade profissional insatisfatória ou desagradável, a reforma seja contemplada como uma forma de libertação e de descanso. Tendo em conta estes últimos pontos a reforma pode ser perspectivada segundo Tomás (2001, cit. Ferreira, 2006) como um “prémio” ou um “castigo”.

Em todas profissões, e em ambas as situações, o ambiente, as relações, os clientes, tudo o que envolve a esfera do trabalho, fazem parte da história de vida dos indivíduos. Segundo França (1999) muitas vezes os indivíduos constroem a sua própria personalidade enraizada no trabalho sendo difícil a desvinculação. A maioria dos sujeitos não estão preparados para uma mudança tão brusca, e dificilmente saberão planear os desejos antecedentes na hora de se reformarem, “ o que constatamos é que muitas pessoas mantêm-se acomodadas e alienadas diante o seu futuro” (França, 1989 cit. França,1999).

A reforma pode ser um engano! O que fazer depois do descanso? Como é que de um dia para o outro, as pessoas, irão substituir a vida de obrigações por uma vida de lazer?

Face a esta situação, passagem de vida activa à inactividade e a falta de planos futuros poderão trazer aos indivíduos efeitos nefastos. Heinz-Dieter Hardes e Judith Mall (1993, cit. Silva, 2008) afirmam “que a retirada abrupta da vida profissional para entrar numa situação quase desconhecida, pode trazer aos trabalhadores problemas graves, tais como: sentimento de ter sido deixado descartado, perdas de contactos sociais e mudanças no âmbito familiar.”

Lúcia França (1999) afirma que a ruptura provocada pela reforma poderá ser a perda mais significativa da vida social do indivíduo podendo resultar noutras perdas e afectar a estrutura psicológica.

Em primeiro lugar, segundo a mesma autora, verifica-se uma diminuição do rendimento, depois um estado de ansiedade, depressão provocado pelo vazio do trabalho, doenças psicossomáticas adquiridas durante e após o processo de reforma e para finalizar o aumento na frequência das consultas médicas para não falar que nos três primeiros anos da reforma existem casos de morte súbita.

Contudo existe preocupação por parte de organismos internacionais face a esta problemática. Existe recomendações do Plano Internacional de Viena e a Organização internacional do Trabalho (1980, cit. Silva, 2008), na qual os Estados membros deverão fomentar medidas para apaziguar a transição da vida activa para a reforma, integrando a diminuição progressiva do trabalho e formações para a preparação da reforma para minimizar as consequências de uma reforma abrupta.

Na actualidade a principal energia que move o mundo é de natureza económica e para colmatar as consequências negativas de uma reforma súbita é preciso existir “vontade política” (Silva, 2008).

 

 

Inactividade versus qualidade de vida

 

Efectivamente, o planear a reforma, tendo como objectivo a distribuição do tempo e mudanças necessárias, permitem combater a frustração da qual muitos reformados ficam expostos. Ferreira (2006, eg) declara que “ a reforma não é terminar uma vida, mas transforma-la” Algumas pessoas podem-se dedicar a um hobby, a um desporto, leitura, cinema, viagens, à participação sociocomunitária, voluntariado entre tantas outras. O importante é os sujeitos manterem-se activos depois da reforma, sendo um ponto crucial, uma “essência vital”, pois “deixar de trabalhar, em muitos casos são deixar de fazer, de estar, de ser” (Tomás, 2001, cit. Ferreira, 2006). Também o mesmo autor sensibiliza para o estigma em torno da actividade “as pessoas ao não trabalharem não produzem e, por isso, não são consideradas úteis à sociedade”. O estar activo relaciona-se com o conceito de qualidade de vida. Na perspectiva de Vergati (2004, cit. Ferreira, 2006) também afirma “ a qualidade de vida está relacionada com o ter, o ser e o amar” e com a percepção individual relativa a estas ideias. Estar activo é uma das condições fundamentais para se viver com sucesso esta fase da vida e este novo estatuto.

Para uma melhor compreensão é essencial perceber que a continuidade da vida activa pode ser vista, a partir da construção social do sujeito, os projectos futuros, as expectativas e a vontade, ou não, de se manterem dinâmicos.

 

 

Em suma, partindo dos pressupostos acima referidos, perspectivando-os como uma trilogia, situação económica e incentivos à reforma, ruptura com o mundo do trabalho, inactividade versus qualidade de vida permite aos indivíduos enfrentar tal situação como um desafio.

Efectivamente a reforma pode ser uma recompensa ou uma ameaça, existindo diferentes formas de a perspectivar. Certamente tudo isto poderá ser condicionado pelo factor económico, obrigações familiares, rotinas domésticas, a falta de consciência, o fatalismo, a certas características da personalidade, à capacidade física, mental ou psicológica, bem como, aspectos socioculturais, históricos, cronológicos e políticos onde o indivíduo está inserido. Todavia é preciso consciencializar as pessoas que as expectativas em relação a esta idade/estatuto muitas vezes auto-profetizam-se. É preciso desconstruir o estigma que existe. O importante é que seja vista como apenas uma fase da vida, como tantas outras ao longo do ciclo de vida, com vantagens e desvantagens, tendo sempre a consciência da responsabilidade individual das decisões. Walter Benjamim (1994, cit. França, 1999) afirma que “ A felicidade das próximas vinte e quatros horas depende de que nós, ao acordar, saibamos como apanha-la”.

Deixo também uma última mensagem para aqueles que têm uma visão estereotipada sobre a reforma.

Não temos a liberdade de escolher entre o envelhecer ou não envelhecer, mas temos a liberdade de dar rumo ao que nos acontece. E recordando uma frase feita de André Maurois que li algures “Envelhecer é um mau hábito que um homem ocupado não tem tempo para adquirir”.

 

 

 

Bibliografia

           

Ferreira, Marianela Nunes (2006), “Transição à reforma, Qualidade de vida e envelhecimento”. In Revista Transdisciplinar de Gerontologia, 30-34, Porto,  Universidade Sénior Contemporânea

 

França, L.H.F. (1999), “ Preparação para a Aposentadoria: Desafios a Enfrentar”. In R.P. Terceira idade: alternativas para uma sociedade em transição, 11- 34, Rio de Janeiro, BR: Editora Relume-Dumará.

Silva, Germano Campos (2008), “ Da Aposentadoria Parcial: Uma medida de preparação para a saída da vida ativa à inatividade”. In Revista Âmbito Jurídico, Nº 54, Rio Grande, Âmbito Jurídico Comércio e Serviços de Informação Ltda.