Adolescência…histórias para recordar…

O WESTERN DA MINHA ADOLESCÊNCIA
(Maria Celeste Ceboleiro)

Na minha terra era assim. Lá no meio do mato, no dia em que havia cinema, jantava-se mais depressa, enfiava-se a roupa de quase ver a Deus e, numa corrida, postávamo-nos no barracão em que assistiríamos à ansiada projecção, em meio de incontornáveis procelas. O senhor encarregado da magia subia as escadas enquanto nós nos acomodávamos nos bancos mais do que menos duros.

No túnel de luz que nos vinha por trás da cabeça, e bem lá em cima, o volteio dos morcegos regia a sinfonia dos ais das mães. Começava o acenar de lenços, vindos de casa já preparados para o percalço, tipo partida de barco transoceânico. Não contando com a coruja cinéfila que se misturava com a restante plebe e que, no intervalo, nos olhava do seu ponto de mira, na borda do fosso da orquestra.

E tinha início a aventura. Por vezes apenas o dos melhores filmes indianos que pululavam pela colónia; elanguescentes mulheres enroscavam-se em colunas, enquanto lhes saía pelos lábios um lânguido e crescente cântico. Do cântico sabíamos pouco para além da melopeia. Ficávamos pendurados nas legendas, à procura de sinais inteligíveis por entre chuvas de riscos e manchas negras. Quando não em movimento uniformemente acelerado.

Outros dias, porém, a sessão era a sério. O filme, recomendado, trazia uma enchente ao barracão. E lá estávamos, ávidos de acção ou intriga.

Aquietados, todos, morcegos, coruja e gente, bebíamos o mais empolgante enredo.

Subitamente nada daquilo fazia sentido!
Ao fim de meia hora de perplexidade, alguém mais afoito perguntava: que bobine é essa?
Desvendava-se o mistério! O senhor projectista começara a sessão pela terceira bobine, já com várias interrupções, pois que entretanto o filme partira ou a luz fundira. Da primeira passava-se à segunda, e depois víamos a quarta, pois que não havia noite que chegasse para tanta desordem. Aproximava-se a hora do sono da coruja.

Eu estava na adolescência.
Mil águas correram sob todas as pontes Mirabeau dos meus países.

Hoje, volto a jantar mais depressa, enfio a roupa de ver um deus menor e na mesma corrida, posto-me à entrada de obra maior do engenho humano, para ver o western da minha adolescência.

Nem morcegos, nem coruja, nem lenços, nem ais de mães! Só noite à minha frente, e o western da minha adolescência!
Encontro amigos outros e o mesmo desejo de ver um filme.

Subitamente, abre-se lenta e tímida, a porta da obra maior do engenho humano! Aproximo-me do western da minha adolescência!
E…num murmúrio, alguém, pé ante pé, palavra a palavra, invoca o meu perdão.
Não há projecção do western da minha adolescência!
O senhor das chaves da sala não veio!
Estava anulada a sessão!!!

Volto-me para trás. Encontro a noite! Com todo o tempo para a coruja!